RELOCAÇÃO DE FAUNA NO BRASIL: NECESSIDADE, IGNORÂNCIA OU CALAMIDADE?

Inicialmente, devemos pensar sempre no ambiente para o qual estaremos levando algum animal. Algumas perguntas deverão então ser respondidas pelo técnico que estará realizando a operação: a) O ambiente está em equilíbrio ou não? Se não está, por que?; b) Essa espécie é de ocorrência na área?; c) O animal que quer relocar é da mesma região?; d)
Atualmente existem animais da espécie na área? Se não existe, por que?; e) Existe espaço para esta quantidade de animais nessa área?; f) Quais os problemas que estes animais poderão estar trazendo para a área?; g) Há necessidade desta relocação para a população residente e/ou o ambiente? Alguns pontos serão levantados aqui, no sentido de discutir um pouco cada um desses questionamentos e o que esperamos que se faça no Brasil para que possamos respondê-los de uma forma consistente. Além disso, esperamos estar abordando a importância de cada um desses questionamentos para a fauna do País.
Qualquer perturbação em uma área natural tende a causar um desequilíbrio na mesma, alterando a relação quantitativa entre as espécies. Essa situação pode ser gerada, por exemplo, por um desmatamento de parte dessa área. Isso fará com que haja um adensamento de algumas espécies que estarão fugindo da área desmatada para a remanescente. Esse adensamento de algumas espécies animais não é acompanhado por outras espécies, especialmente vegetais. As espécies adensadas tentam sobreviver, utilizando o recurso disponível, mas ele não é mais suficiente para tamanha população. O recurso alimentar é então exaurido ao limite de provocar morte da maioria da população das espécies que se utilizam dele. Isso pode inclusive culminar com a extinção de algumas das espécies em questão e também do seu recurso alimentar. Entretanto, essas áreas afetadas têm capacidade de se recuperar, utilizando o recurso ecológico restante na área.
Essa recuperação do equilíbrio pode durar dezenas ou centenas de anos. Então, se a área está em equilíbrio, para que depositar animais nela, correndo o risco de alterar este estado de equilíbrio, levando a mais extinção de espécies? Se não está em equilíbrio, nossa relocação tende a ajudar ou atrapalhar este processo de equilíbrio? Como estas são questões sempre muito difíceis de responder, deveríamos estar pelo menos avaliando as nossas ações, seus benefícios e malefícios.
Um estudo sobre a maioria das extinções do planeta nos últimos séculos definiu que a maioria esmagadora das extinções na terra foram provocadas por introdução de espécies exóticas. Portanto a introdução em uma determinada região, de uma espécie que não ocorria originalmente seria uma catástrofe para ela. Exemplos disso no mundo não faltam, especialmente na Oceania. Assim sendo, temos que ter certeza de que a espécie que estamos relocando existe ou já existiu no local. Outro ponto importante, são as particularidades das subespécies e populações, que selecionaram seus alelos àquele ambiente, diferentemente de outras, que ocupam outros ambientes. Dessa maneira, teríamos que ter idéia da constituição gênica e freqüência alélica de cada uma das populações envolvidas na relocação. No Brasil, a cada dia, são descobertas espécies novas, inclusive de mamíferos e até na Mata Atlântica, como é o caso de Leonthopitecus caissara e Mazama bororo. A partir dessa informação, como podemos estar relocando animais em um País onde não sabemos nem quais são as nossas espécies? As pesquisas estão em curso no Brasil, mas ainda não poderiam dar suporte a relocações, com raras exceções para algumas espécies bem conhecidas.
A existência de uma população de uma determinada espécie em uma área torna a relocação uma ação ainda mais complicada e perigosa. Nesse caso, podemos estar fadando uma população, que já existe e está bem, ao desaparecimento. Se a densidade dela não é alta, devemos perguntar por que? Certamente existem fatores ambientais que estão fazendo com
que esta população seja reduzida. Estes podem ser, falta de alimento, falta de abrigo, falta de área ou local para nidificação, caça excessiva, etc. Portanto se não controlarmos estes fatores, de nada adianta estarmos repondo alguns animais nessa área. A proteção e enriquecimento da área pode ter um resultado muito melhor, com recuperação dos números normais em pouco tempo. A capacidade de reação de uma espécie é incrível, mediante a medidas protecionistas eficientes.
Um questionamento que sempre nos vem a mente é o de quantos animais cabem numa determinada área. Quem pode determinar isso? Alguns estudos de densidade média de uma espécie para cada ambiente que ocupa pode direcionar as ações. Entretanto, a capacidade de
carga daquela área que estamos trabalhando é sempre muito difícil de avaliar, pois as variáveis existentes tendem a se desviar das estimativas. O único que pode saber isso é o próprio animal. Para controle desse erro é recomendável que reponhamos um número menor de animais que o possível suporte da área. Nunca podemos esquecer que a determinação da quantidade de animais que relocaremos para a área depende da população existente, portanto uma estimativa criteriosa da população da espécie envolvida deve ser procedida antes de qualquer ação.
A chegada de um animal em uma determinada área é sempre um evento crítico, tanto para o ecossistema, como para outros animais que vivem nele. Quais as informações e problemas que estes animais trazem é sempre uma incógnita. Comportamentalmente, temos problemas importantes que podem estar adentrando, como mansidão à presença humana por exemplo. Animais mansos podem repassar este comportamento aos demais animais que vivem na área. Este comportamento pode ser benéfico ou não para os animais, conforme as pressões que essa área sofre. No entanto, a preocupação maior está no aspecto sanitário. Várias enfermidades podem vir com os novos indivíduos, causando problemas sérios à população residente, podendo culminar com a morte de alguns ou todos indivíduos dela. No cativeiro, os animais passam a ter contato com um número muito grande de doenças que não são normais para a espécie. Em muitos casos, se tornam portadores sãos, podendo levar esta doença a outros animais da espécie. Em cativeiro o animal pode ter sido auxiliado pelos antibióticos e cuidados veterinários, mas em vida livre os animais podem simplesmente perecer ao contato com a enfermidade. Certamente este problema não será percebido pelo técnico, pois o monitoramento dos animais já residentes é praticamente impossível de ser realizado. Sempre o animal introduzido é monitorado e o efeito das enfermidades que ele carrega sobre ele mesmo certamente será mínimo.
Um programa de relocação de fauna deve ter um objetivo muito claro e deve favorecer o ambiente ou a população residente. Relocar um indivíduo somente porque ele é excedente em algum zoológico, ou porque não temos o que fazer com ele é um ato antes de tudo criminoso. Então, por que relocar? Temos que estar pensando nisso sempre que estivermos
dentro de um programa, ou simplesmente abrindo a gaiola de uma ave para dar-lhe a “liberdade”. Transferir para a natureza um problema que é seu não ajuda em nada, apenas ele muda de mãos, com a possibilidade de provocar grandes catástrofes. Entretanto, se há necessidade da relocação, ela deve ser realizada. No Brasil temos um exemplo claro dessa necessidade, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Apenas um indivíduo em vida livre retém
toda a informação evolutiva da espécie e a morte dele, levará a espécie à extinção. Algumas
dezenas de animais em cativeiro tem uma oportunidade única de obter esta informação, se forem relocados para a área onde vive o último exemplar “real” da espécie. Isso porque acreditamos que uma espécie é uma entidade biológica delicadamente transformada, ao longo da evolução, para fazer seu papel no ecossistema em que vive; dispersar determinadas sementes, predar outras, fazer uma cavidade na árvore, enfim todo um sistema coevoluido para se manter ao longo dos tempos. Portanto, um animal em cativeiro tem um futuro não muito promissor em termos de contribuição biológica com a espécie. Se pensarmos em outras espécies, fica difícil recomendar a relocação como uma coisa vantajosa, pelo menos com o conhecimento científico atual. Quanto ao conhecimento científico, todas as ações de pesquisa, inclusive com testes de reintroduções, translocações e introduções são válidos, pois darão subsídios a ações futuras dessa natureza. Entretanto não podemos confundir pesquisa com ações não cientificamente monitoradas, que é a esmagadora maioria das solturas de animais realizadas no Brasil.
Dentro desse contexto, o importante no momento é a proteção pura e simples das áreas remanescentes, pois a perda delas gerará, conseqüentemente, a perda das espécies. Os programas de reflorestamento e relocação de fauna são uma tentativa do ser humano em criar, em poucos anos, o que a natureza levou milhões de anos para criar. O caminho é longo e cheio de percalsos, mas podemos chegar lá, com consciência de nossas limitações e respeito pelos ambientes naturais!
Por: José Maurício Barbanti Duarte, professor do Departamento de Zootecnia, FCAV/UNESP Jaboticabal (barbanti@fcav.unesp.br)
Fonte: Associação Brasileira de Veterinários de Animais Selvagens/ABRAVAS
www.ambienteemfoco.com.br
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