MANEJO EXTENSIVO DE ANIMAIS SILVESTRES COM FINS COMERCIAIS

Proteger e utilizar racionalmente os recursos da fauna requer ações de manejo que demandam conhecimento, técnica, controle e monitoramento. Visando atender a estas premissas, uma estratégia que vem sendo amplamente disseminada é a criação de animais silvestres em cativeiro. No caso específico do Acre, já existem alguns criatórios comerciais de tartarugas, pacas, capivaras e catetos implantados com sucesso em várias localidades do Estado e há ainda vários outros criatórios em fase inicial de implantação, indicando o crescente interesse no setor. Como exemplo, pode-se mencionar o criatório de capivaras, pacas e catetos implantado na Fazenda Experimental do Catuaba, localizada cerca de 25 km de Rio Branco, que é resultante de uma parceria entre a Secretaria de Agricultura e Pecuária (Seap), Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal (Seater), Universidade Federal do Acre (Ufac) e Embrapa Acre.
Uma outra estratégia importante, mas ainda pouco difundida, é o manejo extensivo dos animais silvestres, com o abate seletivo de uma porcentagem da população; uma experiência que vem sendo desenvolvida com capivaras na Venezuela e em algumas províncias da Argentina. Nestes países, a legislação vigente estabelece que o produtor deve inicialmente solicitar uma licença ao Ministério do Meio Ambiente, que envia técnicos ao local para fazerem a contagem direta dos animais. Dependendo do tamanho da população, o Ministério do Meio Ambiente permite o abate de 20% a 30% dos animais existentes nas propriedades. Na Venezuela, este sistema vem sendo adotado desde 1968 e, apesar de todos os problemas enfrentados na fiscalização e da pressão sobre os animais em função das dificuldades econômicas pelas quais passa o País, algumas propriedades conseguem manter populações razoáveis, que são exploradas anualmente.
É óbvio que o sucesso desta experiência depende diretamente da eficiência de contagem de animais realizada pelos órgãos competentes, da capacidade de fiscalização destes órgãos e, principalmente, do apoio do produtor que se compromete a abater somente a porcentagem permitida por lei. É uma experiência, no entanto, que pode beneficiar várias famílias e contribuir para a consolidação das atuais políticas públicas que visam ao uso sustentável dos recursos naturais.
Do ponto de vista das populações tradicionais e dos produtores de base familiar, o sistema de manejo extensivo é uma alternativa interessante, uma vez que não envolve custos com manutenção dos animais e/ou construção de recintos. Do ponto de vista das atuais políticas de conservação ambiental, o abate seletivo de animais silvestres para fins comerciais, com autorização e acompanhamento dos órgãos competentes, pode inibir a venda ilegal da carne, pele e outros produtos que abastecem os mercados das cidades. Além disso, a possibilidade de se obter uma fonte adicional de renda por meio do manejo extensivo cria oportunidades de investimento em atividades de educação ambiental (já que haveriam normas a serem seguidas), fazendo com que as pessoas passem a trabalhar em parceria com os órgãos ambientais, o que poderia, inclusive, auxiliar nas atividades de fiscalização destes órgãos.
No Brasil, o Ibama autoriza o manejo de animais silvestres em sistemas extensivos, somente nos casos em que os animais fazem parte de uma população isolada geograficamente de outras populações, uma vez que a Lei de Proteção à Fauna Silvestre permite apenas a comercialização de animais nascidos em cativeiro. Todavia, em função do crescente interesse no uso racional da fauna silvestre, já há uma discussão em andamento, envolvendo técnicos de várias Instituições, em busca de subsídios para a reformulação desta legislação. No Estado do Acre, encontra-se em fase experimental uma iniciativa de manejo extensivo de queixadas, liderada pelo CNPT/Ibama, na Reserva Extrativista do Cazumbá Iracema, comprovando o interesse dos órgãos ambientais em encontrar uma solução sustentável à questão do uso da fauna silvestre. Além disso, o elevado número de apreensões de animais abatidos ou vivos sendo comercializados de forma ilegal no Brasil demonstra claramente que não basta somente proibir. Esta atitude é particularmente ineficiente em um Estado como o Acre, rico em termos de biodiversidade e que tem arraigado na cultura de seu povo o consumo de carne de caça (mesmo entre os moradores das cidades).
O desenvolvimento e o aperfeiçoamento de estratégias que promovam o uso racional e sustentável da fauna silvestre são, portanto, demandas que precisam ser trabalhadas sob diferentes aspectos: é preciso investir sim na criação comercial de animais silvestres em cativeiro, mas é preciso, também, investir no manejo destes animais em seus ambientes naturais.
Por: Patrícia Maria Drumond, bióloga, pesquisadora da Embrapa Acre. patricia@cpafac.embrapa.br
0 Comments:
Postar um comentário
<< Home